Sangue Quente - Isaac Marion: Monstros sedutores?

De todos os monstros modernos, o único que eu achava realmente impossível de engolir eram os zumbis.
Zumbis são coisas de meninos. 

Mas em Sangue Quente de Isaac Marion a gente é surpreendido com uma abordagem diferente dos mortos-vivos.

Vem com o Peixinho descobrir o que R. (zumbi protagonista de Sangue Quente) tem por baixo da sua pele cinzenta.

(crédito da imagem para Universo Zumbi)

Vou dizer por que acho que zumbis são coisas de meninos: meu marido AMA The Walking Dead
Eu detesto.

Essa tradução foi feita pelo Peixinho, mas o original em inglês está no 9Gag.


Os zumbis de TWD são burros, lentos, moles, nojentos. Cada episódio é uma repetição da mesma fórmula que eu coloquei ali em cima. Tudo é muito sujo e detonado, e sangue gosmento espirra pra todo lado. Os humanos são incrivelmente inescrupulosos e imbecis. Mas meu marido adora.
E ainda pede: "Gabizinha, vem assistir ó-quim-dedi comigo!"
Na hora da janta. Aff...

Então eu não sou lá muito fã de zumbis.
Ainda por cima, me recomendaram esse livro como um romance entre um zumbi e uma garota viva.
Whatafuqui!!!! Romance? Zumbi?!?!

A tradução foi feita pelo Peixinho, mas a imagem original em inglês pode ser vista no 9Gag.

E, já que estamos falando de seres mitológicos, que tal dar uma força para a cultura nacional?

Até que esse Saci não está nada mal, hein?

E a possibilidade da gente chegar a ler um romance com a Mula-Sem-Cabeça e o Boitatá tá grande viu? Hehehehehe

E foi assim, meio sem entender onde eu estava me metendo, que comecei a ler Sangue Quente.


- Sobre a estória
A estória é contada sob o ponto de vista de R., um zumbi que não se lembra quantos anos tem, quando virou zumbi ou mesmo seu nome. Ele vive num aeroporto abandonado junto com vários outros zumbis, mas tem sua "casa" dentro de um boeing 747.

(crédito da imagem para Cine Menu)

Ele conta que tem consciência, mas não sabe se outros zumbis tem consciência também, porque a comunicação entre eles é quase impossível. Eles não têm muitas expressões faciais nem emitem muitos sons além de rosnados, grunhidos e pequenas palavras. Seu record numa frase foi de 4 palavras.
Como todo zumbi, além de rosnar e grunhir, ele gosta de comer carne humana fresca. Principalmente cérebros. E, apesar de parecerem alheios uns aos outros, os zumbis vivem num arranjo social que permite que tenham escolinhas para ensinar as criancinhas zumbis a caçar; igrejas comandadas pelos zumbis mais velhos, os Ossudos; casamentos ente zumbis; e distribuição de tarefas.

Numa das caçadas para trazer carne humana para a colméia zumbi, ele se depara com um grupo de jovens que estava recolhendo remédios em uma fábrica abandonada da Pfizer, e lá, depois de comer o cérebro de Perry, teve acesso aos pensamentos e memórias do rapaz. Inexplicavelmente se apaixonou pela namorada dele, Julie Grigio.

Como tem consciência, R. se sente mal por machucar as pessoas, apesar de continuar a fazer isso, porque não consegue se controlar. Mas depois que comeu o cérebro de Perry, ele desperta um instinto de proteção sobre a garota. E lambuzando ela de sangue zumbi para evitar que os outros sintam o cheiro de vida que ela exala, ela a leva para sua casa-avião.

Daí pra frente a estória se desenrola com o amadurecimento da consciência de R., as conversas entre ele e Perry, que fala diretamente com sua mente, e as tentativas para salvar a humanidade.
Porque os seres-humanos vivos estão em uma situação até pior do que os zumbis, depois de algum desastre que a gente termina não sabendo qual foi. A sociedade se desintegrou, as pessoas perderam sua motivação de viver e não enxergam o fim do túnel a possibilidade da cura e de real felicidade.

Essa estória é uma distopia.
E o que diabos é "distopia", Gabizinha?
Pois faz pouco tempo que eu descobri o que isso quer dizer. Distopia é o contrário de utopia. Enquanto utopia se refere a uma situação futura tão agradável que é difícil de ocorrer, distopia se refere a um futuro que é uma verdadeira porcaria: com colapso social, autoritarismo governamental, falta de liberdade individual. Enfim, uma bosta.
Outros exemplos de estórias distópicas que vocês devem conhecer são Jogos Vorazes da Suzanne Collins e Divergente da Veronica Roth.
Se quiserem ler mais sobre distopia numa fonte pouco confiável, acesse o verbete Distopia da Wikipedia! :)


- Sobre o livro
Foi minha amiga Lori quem comentou sobre o livro e o filme. Lori é muito phoda e muito antenada nas nuvidades das interneta e das literatura e cinema da vida. Ela é demais!!
Ah, e ela está abrilhantando a rede no Chick Culture for The Soul, o nosso querido C²4TS. Confiram!!

Cópia do Peixinho, com anúncio do filme Meu Namorado É um Zumbi embaixo.
Tinha levado pra praia e o livro ficou cheio de areia! Hehehehe

Abri o livro e as primeiras frases são exatamente as da contra-capa e as do trailer do filme (tá, porque eu já tinha visto o trailer quando comecei a ler). Continuei lendo e me surpreendendo com o quanto o livro era engraçado no começo. Dei boas risadas com algumas frases.
"Pode-se dizer que a morte me deixou relaxado."
R., Sangue Quente, pág. 15. 

"Abro o zíper, olho pra baixo e ali está ele. O instrumento mítico de vida, morte e transa no primeiro encontro no banco traseiro. Ele está ali pendurado, mole e inútil no momento, me julgando silenciosamente por todos os maus usos que fiz dele durante anos."
R.Sangue Quente, pág. 187.

Mas o clima de comédia acaba a partir do meio do livro, quando R. e Perry, ambos dividindo a mesma mente, nos contam como é viver no planeta do jeito que está.
Aliás, se tem alguma coisa que quero elogiar mais do que tudo nesse livro, é essa maneira de contar a estória. Achei mesmo genial que a narração em primeira pessoa (até quando, Buda?) fosse, na verdade feita por duas pessoas que são uma só!
Outra coisa excelente são as músicas escolhidas por R. Muito Frank Sinatra e muitas músicas lindas dos Beatles. Amei completamente!!

A pegada do livro é mais sombria, do tipo "rir pra não chorar". Ele tem umas discussões filosóficas muito pertinentes, sobre os rumos da nossa sociedade, sobre o que define um ser-humano, sobre felicidade, sobre futuro.
Pelo ponto de vista do autor, os vivos-vivos estão tão mortos quanto os mortos-vivos.
Perry é um exemplo disso. O garoto tinha desistido de viver há tempos. Só estava esperando a oportunidade.

E através desse casal inusitado, o mundo inteiro conhece um caminho para sua própria redenção. Final Feliz.
Ah, vá, nem é um spoiler, porque tava claro desde o começo que tinha final feliz nessa panela.

O livro é relativamente bem escrito, mas a versão da Leya tem um monte de erros de gramática e de concordância. É um tal de "porque" junto numa pergunta e de falta de "s" nos substantivos concordando com plurais que eu já até passava direto.

Mesmo assim, vale muito à pena.
Separei mais umas frases do livro pra vocês:
"Claro que ficar vivo é importante pra caralho. Mas deve ter algo além disso, entende?"
JulieSangue Quente, pág. 83.

"O que é uma cidade e por que continuamos construindo cidades? Leve embora a cultura, o comércio, os negócios e o prazer, sobra mais alguma coisa? Apenas uma rede de ruas sem nome cheias de pessoas sem nome?[...]
[...]Por que não nos espalhamos? Fugir para as montanhas e plantar nossas raízes onde o ar e a água eram limpos? O que é que precisávamos tanto nesse amontoado de corpos?"
Vozes dos mortos comidos por R.Sangue Quente, pág. 159/160.

"-O que me impressiona - Nora diz, se encolhendo para passar pelo barrigão de uma mulher morbidamente grávida - é que apesar das coisas que faltam e que precisamos, as pessoas continuam a fazer filhos. Inundando o mundo com cópias deles mesmos apenas porque é tradição, porque é o que fazemos."
NoraSangue Quente, pág. 160/161.

 "Acho que fomos nos destruindo ao longo dos séculos, nos enterrando em ganância e ódio e quaisquer outros pecados que conseguíssemos encontrar, até que nossas almas atingiram a camada de pedra no fundo do universo. E então fizemos um buraco nessa camada e atingimos um... lugar sombrio."
JulieSangue Quente, pág. 236.

 

- Sobre o filme
Quando eu vi o simbolozinho da Summit subindo na tela já pensei: Xiiii, vão transformar a estória em Crepúsculo.
Não deu outra.

(crédito da imagem para Team Twilight)

Ignoraram completamente a parte filosófica do livro pra deixar o filme com cara de comédia romântica adolescente, quando o menos importante na estória era o romance adolescente. Isso acontece, é claro. É um dos motivos para a estória existir, mas na conjuntura era irrelevante. Enfins...

Conforme Lori destacou muito bem destacado no C²4TS, tentaram muito transformar Meu Namorado É um Zumbi em uma versão decrépita de Crepúsculo de Stephenie Meyer. Ela colocou os dois pôsteres juntos eu só pensei? WTF!!!

(crédito da imagem para C²4TS)

Ainda bem que vi o filme antes de terminar o livro, porque o filme nem arranha a superfície do que é discutido no livro. Se tivesse feito na ordem inversa teria me arrependido ainda mais de ter ido ao cinema.
A pegada do filme é completamente diferente, superficial, além da Teresa Palmer, em determinadas tomadas, ser quase um clone da Kristen Stewart (tá, ok, ela tem expressão facial, mas mesmo assim!).

Além de terem mudado um monte de aspectos do livro, o que me deixa muito irritada. Não sei de onde tiraram esse R.. Ele não é nada assim no livro! Esse casaco vermelho é da Julie, não dele. Ele usa camisa social cinza e gravata vermelha. Realmente quiseram transformar o cara em hipster.
O pai de Julie, Gerenal Grigio tem um desfecho completamente diferente do original. 
M., o zumbi mais bacana do livro todo, parece muitas vezes mais inteligente que R., mas a escolha do ator foi completamente equivocada.
Perry tem uma participação muito mais ativa no livro do que no filme. E a sua falta de participação contribuiu muito para que o filme não tivesse o tom certo.

O melhor do filme foi que, apesar de não terem mantido a trilha musical conforme o livro, escolheram umas músicas muito bacanas. Tocou Patience do Guns n' roses!!
Preciso dizer que me derreti toda? Essa foi uma das melhores partes do filme.





Em resumo, se você não gosta de Young Adult nem de Crepúsculo e tem em mente que essa é uma versão zumbi de Crepúsculo, vai se surpreender positivamente com o livro. Então, leia.

Se você adora Young Adult e não tem vergonha de ter lido e gostado muito da saga Crepúsculo, se é Team Edward ou Team Jacob até hoje e procura algo que tente preencher o vazio que se formou em seu peito depois que tudo acabou, vá assistir Meu Namorado É um Zumbi e seja feliz.

Mas eu preferi o livro.

2 comentários:

  1. "Como tem consciência, R. se sente mal por machucar as pessoas, apesar de continuar a fazer isso, porque não consegue se controlar. Mas depois que comeu o cérebro de Perry, ele desperta um instinto de proteção sobre a garota. E lambuzando ela de sangue zumbi para evitar que os outros sintam o cheiro de vida que ela exala, ela a leva para sua casa-avião." >> nem um pouco familiar, acha.

    "Foi minha amiga Lori quem comentou sobre o livro e o filme. Lori é muito phoda e muito antenada nas nuvidades das interneta e das literatura e cinema da vida. Ela é demais!!" A propósito... impossível de conseguir manter comunicação com qualquer uma de vocês duas ultimamente. Correria aqui, e montes de coisas acontecendo com vocês também.

    "Quando eu vi o simbolozinho da Summit subindo na tela já pensei: Xiiii, vão transformar a estória em Crepúsculo. Não deu outra." *não vou rir... não... vou rir... rindo feito uma maluca*

    "Ela colocou os dois pôsteres juntos eu só pensei? WTF!!!" >> nem precisa colocar lado a lado kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    "Ele não é nada assim no livro!" Qualquer pessoa, sobre qualquer personagem de filme/seriado que veio de livro.

    "Em resumo (...) feliz." >> A gente comenta nada não kkkkkkkkkk

    "Mas eu preferi o livro." >> precisa mesmo dizer alguma coisa?

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  2. pelo amor de deus essa versdao do livro com capa do filme abaixo existe???????????????????????? no brasil?

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd

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