Discutindo os livros Young Adult

Gente, depois de ler Divergente, PRECISO fazer uma análise de alguns elementos sempre presentes em um livro young adult.
Fico passando e repassando na minha cabecinha o por que desse estilo me irritar tanto. Mesmo quando a estória é muito boa - e Divergente é uma estória muito boa - escolher levar o livro dessa maneira me decepciona.

(crédito da imagem para All Sufficient God Church)

Os livros vêm sendo escritos como roteiros de filmes sempre. Novos escritores estão se formando sei lá onde, mas com a perspectiva de escrever alguma coisa que vá lhe render dinheiro, moooointo dinheiro.
É claro que todo mundo quer dinheiro, mas a motivação de um artista deve ser a arte, não o dinheiro. Dificilmente uma peça artística feita por amor às verdinhas é algo inédito. Quando alguém está de olho em engordar a conta do banco, procura o caminho mais seguro, que é o de tentar seguir as tendências e fazer alguma coisa muito parecida com o que já está aí.


Se você repararem na maioria dos livros que lemos ultimamente, dá pra imaginar perfeitamente as cenas da adaptação para o cinema.
Não é à toa que Divergente já virou filme e será lançado dia 21 de março no Isteites e 17 de abril por aqui.

(crédito da imagem para Pipoca Combo)
Confesso que gostei muito de terem escolhido a Shailene Woodley como Tris, porque acho essa garota excelente atriz - vejam Os Descendentes. E ela está em alta, pois também faz outra adaptação de livro o A Culpa é das Estrelas.

E de tanto ler títulos nesse estilo e de tanto me debater sobre características sempre repetitivas, mas que fazem um sucesso danado, cheguei a algumas conclusões:


  • Narrativa em primeira pessoa: já fui adolescente, por isso acho que tenho conhecimento de causa, e como os adolescentes em geral - raríssimas exceções - era egoísta e dramática. Achava que sabia tudo e que conseguiria todas as respostas para tudo o que eu quisesse saber por minha própria conta e que somente eu passava por aquele problemaço, e que ninguém iria entender meu drama. Por isso acho que a escolha da narrativa em primeira pessoa cativa tanto os young adults, porque em geral eles escutam muito mais suas próprias vozes do que as de qualquer pessoa, não cogitam a possibilidade de seus problemas terem soluções simples nem que outras pessoas mais velhas tenham passado exatamente pelas mesmas coisas. Em geral, qualquer conselho é mal visto e eles tomam péssimas decisões muito frequentemente - tipo as heroínas dos romances young adult;
"É assim que as dramáticas vão ficar quando o mundo acabar." (tradução do Peixinho)
(crédito da imagem para 9gag)
  • Virgindade: acabei de ler uma reportagem no Yahoo que dizia que os seres humanos estão entrando na puberdade cada vez mais cedo: 1 em cada 10 meninas brancas menstruam aos sete anos e 1 em cada quatro meninas negras também menstrua aos sete anos. Não é novidade para ninguém que a garotada começa sua vida sexual cada vez mais precocemente. Agora, meu povo, que mãe e pai acha bacana os filhos começarem a fazer sexo cedo demais? Por piores que sejam os pais (tirando os bandidos, pedófilos, estupradores, etc. Esses não são pais, são monstros), todos eles esperam que seus filhos tenham maturidade para começar sua vida sexual, para não pegar uma doença, para não desencadear uma gravidez indesejada. Para influenciar o público que lê esse tipo de livro é que os autores quase sempre valorizam muito a virgindade. Não vejo problema ou pecado em fazer sexo, desde que as duas pessoas saibam o que estão fazendo e quais as consequências das suas escolhas. Ah, e que também assumam a responsabilidade caso dê alguma merda;

  • Amor verdadeiro, primeiro, único e eterno: quase sempre nesses livros as pessoas encontram seu primeiro, único e verdadeiro amor. Ora, meus sais, todo adolescente acha que cada amor será o melhor, mais forte, mais verdadeiro e eterno. Depois de muitas porradas é que a gente sabe que essa sensação de "primeiro e único" é resultado da novidade e "verdadeiro e eterno" só se mantém até alguém te trair. Mas os livros querem atrair um público específico que está afogado de hormônios e tendo fortes sentimentos dessa natureza bem agora. Por isso funciona;

  • Heroína desastrada: quem é 100% confiante, jeitoso e tem um auto-estima no teto quando se é adolescente? Muito poucos. Na adolescência a gente está encontrando nosso lugar no mundo, nosso corpo está mudando e nossos sentimentos também. Apesar de a gente achar que sabe tudo, não sabe nada. Por isso essas heroínas são construídas confusas, inseguras, desastradas e sem jeito: para fazer a conexão com as meninas que estão lendo e ainda estão se familiarizando com a força que uma mulher tem dentro (uau, arrasei! Huahahahaha);

  • Especial: essa é a pior de todas. A heroína SEMPRE é especial. Ela nunca se encaixa na sociedade. Pode ser mais sensível ou menos disposta a seguir as regras. A grande sacada é que todo mundo se acha especial, principalmente quando ainda somos adolescentes. Ao mesmo tempo a gente acha que a vida do outro é muito melhor que a sua e gostaríamos de trocar de lugar. Então, se colocar no lugar do heróis ou heroína (lembrando que a narrativa é em primeira pessoa) também faz nos sentirmos únicos. Ainda por cima a heroína, de desastrada, se torna forte e destemida, fazendo coisas que nem o Rambo faria!


O ponto chave desse livros sempre recai sobre o personagem principal. É ele quem, mesmo sendo desastrado ou pouco qualificado para a missão, vai dar início a algum tipo de revolução ou solucionar um grande problema - seja da humanidade toda ou da vida do seu grande e verdadeiro amor com quem vai perder a virgindade. E o personagem principal conta tudo em primeira pessoa, te colocando, leitor, como o agente da mudança.

No final, tudo pode virar um filme, onde a menina desajeitada vai ser interpretada por uma jovem e linda atriz que não corresponde a 10% do tipo físico das leitoras desses livros. O carinha AmorEterno-AmorVerdadeiro é sempre lindo e malhado e totalmente inatingível para uma garota com as características da heroína. Além de ser lindo, ele é sensível e inteligente. Aff, me poupe. Tá fácil achar hômi assim néan? Só se for nos livros!

Como sou uma pessoa que não só gosta de apontar problemas, como gosta de sugerir soluções, seguem as minhas sugestões para dar mais qualidade, profundidade e tornar os livros de young adult mais interessantes e inovadores:
  • Chega de narrar em primeira pessoa!!!: Amigues, a não ser que o autor seja genial (tipo João Ubaldo Ribeiro em O Santo que Não Acreditava em Deus, um dos melhores e mais engraçados contos que já li) narrar em primeira pessoa é furada! Quando o narrador é externo o autor tem mais ferramentas, já que pode dar mais camadas à narrativa. Um bom exemplo é a coleção Harry Potter, outro é a Irmandade da Adaga Negra (versão original mil vezes melhor que essa bostareta de tradução que a gente tem aqui no Brasil). O autor pode dar vários pontos de vista, pode mostrar que as pessoas interpretam situações de maneira distinta, pode ir construindo o suspense ao mostrar uma cena se desenrolando simultaneamente sob mais de um ponto de vista. Mas pra isso precisa talento, porque dá mais trabalho e o autor pode perder a coerência no meio do caminho. Porém, quando isso é bem feito, nuooooossa, fica muito foda!
(crédito da imagem para 9gag)
  • Sexualidade coerente: quem lê young adult está com os hormônios fervendo e é bem frustrante quando as cenas mais quentes são suprimidas. Vocês acham que 50 Tons fez esse sucesso todo por quê? Porque alguém teve a brilhante ideia de botar sal naquele romance insosso da Bella e do Edward onde o cara mal tocava a garota. Enquanto a gente sabe que não é um estilo pornográfico, dá pra adaptar a exploração da sexualidade de forma coerente. Tem gente trepando com menos de 12 anos, não dá pra fingir que alguém com mais de 18 nunca viu um piu-pui ou uma pepeca na frente. Sexo faz parte da vida e a vida está começando cada vez mais cedo. Por incrível que pareça, uma das séries que eu acho que aborda a sexualidade de forma mais condizente com a maneira como os adolescentes é House of Night. Zoe é fútil, meio rameira, já trepou com deus e o mundo - literalmente, vira e mexe se apaixona por alguém diferente enquanto está num namoro "sério" com um carinha. Outro problema é o tabu da homossexualidade. Tirando Os Instrumento Mortais, House of Night e Irmandade da Adaga Negra, todo mundo tem medinho de falar nazamiga guei. Garotas sandalinhas então, assunto totalmente proibido. Pra que seja natural e para acabar com a segregação entre pessoas com sexualidade distintas é preciso que isso comece a ser visto com normalidade;

  • História de vida: chega de gente que está amando pela primeira vez. Que tal a pessoa ter uma história de vida para comparar a profundidade desse amor que ela está sentindo? Nem que seja uma história de amor não correspondido, de canalhisse. Por que as heroínas são infalíveis? Por que elas não podem ser filhas-da-puta se redimindo também? Por que elas não são rejeitadas? Eu já dei muito toco - educadamente - em caras nos quais não estava interessada, mas também já tomei toco. Isso é coisa que acontece, coisas da vida. E sobre esses relacionamentos de contos de fada, a vida vem e te dá um tapa na cara, comigo foi assim: um única vez eu fiquei apaixonada pelo cara, suspirando por ele antes de nós finalmente namorarmos - e foi uma bosta de namoro, com um cara abusivo, mimado, começou gatinho e embarangou durante o namoro. Outras vezes, eu conheci o cara, comecei a sair com ele mesmo sem estar apaixonada e a relação evoluiu com resultados maravilhosos, de crescimento pessoal para os dois e muita felicidade, se transformou em amor e foi só coisa boa. Amor á primeira vista é um troço muito raro, não dá pra ficar abordando isso com essa banalidade;

  • Habilidades pessoais: não é toda menina feminina que odeia esportes e mal sabe pegar numa bola. Um monte joga queimado, pique-bandeira, futebol, anda de skate, patins. Sabe cozinhar, sabe costurar - eu faço crochê melhor que muita avó. Muitas meninas dançam bem e cantam também. Nem toda diversão se resume a ler um livro chato como O Morro dos Ventos Uivantes ou aqueles romances que nem nossas tias véias aguentam de tão melosos. Vai ser legal quando a heroína souber descer até o chão e tiver mais auto-confiança. Vai ser legal também quando as personagens acanhadas e tímidas não conseguirem nada simplesmente porque não correram atrás, preferiram ficar se lamentando e esperando um príncipe encantado que não existe;

  • Pessoas comuns: a maioria do mundo é composta de pessoas absolutamente comuns, ao mesmo tempo cada uma tem uma particularidade que a difere do resto do planeta. Então é comum ser especial, não precisamos fazer um grande estardalhaço. São pessoas comuns que mudam o mundo com pequenos gestos: reciclar lixo, ajudar animais abandonados, tratar bem a todos, ser educado, estudar. Não precisa ler mentes, ser vampiro, anjo: basta ser bom;

  • Escrever livros bons: livro é livro e filme é filme. Tranquilo uma pessoa gostar de filmes e não gostar de livros ou vice-versa ao contrário. Agora, não dá para prejudicar uma mídia por causa de outra. Os livros devem ser escritos com a linguagem própria e filmes também. Livros cinematográficos terminam não sendo tão bons nem aqui nem lá. Mais uma vez há exceções, como Dan Brown e Crônicas de Gelo e Fogo, mas são raras. Eu achava O Hobbit inadaptável para o cinema e me enganei. Continuo achando O Silmarilion impossível de virar filme, assim como ficaria muito decepcionada se transformassem a Irmandade da Adaga Negra em uma série ou em filmes. Os livros feitos para serem lidos, usando as ferramentas literárias para deixá-los fodásticos dão a liberdade do leitor imaginar os cenários e os personagens da maneira que lhes for preferida. Pensa como vai chover críticas se for escolhido um ator para o Rhage: um monte de gente vai achar que ele é feio demais para ser o Hollywood, porque na nossa cabeça não dá nem pra imaginar alguém tão lindo como sendo de carne e osso. Essa é a vantagem do livro: tudo é possível.


Agora abro o espaço para quem quiser defender o estilo da maneira que ele é hoje. Claro, se for feito com educação.

Se vocês tiverem lido algum young adult realmente bom - pra começar que NÃO seja em primeira pessoa, recomendem, plis.

5 comentários:

  1. Oi!

    Gabi, nesse post vc conseguiu articular muito bem várias das minhas reações com materiais young adult.

    A questão é que tudo isso que você comentou não é caso isolado, a coisa vira um padrão e é aí que o problema aparece.

    Confesso que já me diverti muito com young adult, mas... realmente, de tudo o que você falou a única coisa que não vejo como uma chatice tão grande assim é a questão de narrativa em primeira pessoa. Nem sempre me incomoda, mas a chance de sair uma porcaria é altíssima. De resto, concordo com tudo o que você colocou.

    Amei você colocar no post sugestões de melhorias no que a gente lê de livros young adult, umas "propostas de intervenção" no melhor estilo de trabalho acadêmico! saudades dos nossos chats malucos!

    Por favor, venha pra Bienal do Livro de SP, de preferência no mesmo final de semana que eu vou - ainda não decidi qual, mas assim que definir eu te conto.

    beijões!

    Hypia

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  2. Concordo,concordo e concordo mais um pouco....

    Só não concordo com o Rhage...gente...o Chris Hemsworth É o Hollywood! :p

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  3. Hello people, tenho dezenove anos e nunca fui muito chegada á young adult exatamente pelo fato desses livros tratarem de as questões que você apontou de forma tão boba. Ler young adult me faz sentir como se todo adolescente fosse um pirralho acéfalo que quer dominar o mundo e o pior é que ele/ela CONSEGUE no final.
    Já li Divergente e Insurgente, e vou continuar com o próximo livro porque gosto do conceito das facções e tudo mais, mas a Tris me deixa borbulhando de raiva de tão mosca morta/bobinha apaixonada/ A revolucionária que ela é, tô pouco me lixando por ela e pelo Tobias. (E sem querer ofender, porque eu absolutamente amo a Irmandade, mas isso acontece também com alguma das fêmeas tipo Cormia e Layla, falando em Layla = Die Bicth, também vale pra vc Jane, ahhh verdade, vc já tá morta. Pronto desabafei...)
    Então, é isso, evito young adult o quanto puder...
    Gostei absurdamente do post, e estava sentindo falta de vir aqui no Peixinho!

    Abraços!

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  4. muito pertinente suas observações, concordo plenamente com todas as críticas e sugestões, realmente não conheço um Young adult que seja ótimo, prefiro outros estilos, ultimamente lí a trilogia Peça-me o que quiser e gostei muito, também amei os livros da Laurann Dohner: Novas Espécies e Sedução Ciborg. (esses não são Young adult)
    Mais uma vez parabéns pela matéria muito bem escrita que vc sempre nos presenteia, bjos

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  5. Muito pertinente suas observações, concordo plenamente com elas.
    não gosto muito de Young adult, suas sugestões foram precisas, esse negócio de transformar livros em filme, as vezes fica quase impossível, como o caso da IAN, dos Novas Espécies da Laurann Dohner por exemplo, tenho certeza que não iria gostar da adaptação.
    parabéns mais uma vez pela matéria, como sempre vc nos presenteia com comentários lógicos e inteligentes, estou com saudade das tuas resenhas fodásticas, bjos!

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd

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